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	<title>Hebdomadário Cultural &#187; Surreais</title>
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	<description>Unindo minha cara de pau com serviço cultural</description>
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		<title>Encarnação repentina</title>
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		<pubDate>Tue, 25 Mar 2008 13:00:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Declev Dib-Ferreira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>
		<category><![CDATA[Surreais]]></category>
		<category><![CDATA[Encarnação]]></category>

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		<description><![CDATA[Comecei a me sentir meio estranho... Uma sensação esquisita, sei lá... Era como se eu soubesse mais do que sei, lembrasse mais do que poderia. Como se tivesse recordações de coisas que não vivi. 

(...)]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center"><strong>ENCARNAÇÃO REPENTINA</strong></p>
<p style="text-align: right"><em><strong>Declev Reynier</strong></em></p>
<p>Comecei a me sentir meio estranho&#8230; Uma sensação esquisita, sei lá&#8230; Era como se eu soubesse mais do que sei, lembrasse mais do que poderia. Como se tivesse recordações de coisas que não vivi. Comecei a me lembrar de pessoas como velhas conhecidas – pessoas que não conheço, pelo menos pessoalmente. Me lembrei e me deu uma certa saudade. Saudade? Tudo bem, conheço-os de nome, gosto de seus trabalhos, já li e ouvi alguns, mas daí a ter saudades?</p>
<p>Me deu de repente uma súbita vontade de casar com a lua. Fui à janela e lá estava ela. Quis pegar uma escada para ir até lá, mas pus o racional para funcionar e me contive. Fechei a janela num tranco, como que a fugir do sentimento. Uma angústia me subiu, como que repensasse minha vida inteira, me dando vontade de mudar. Mudar tudo. Mudar de opinião sobre tudo. Tudo o que pensava, naquele instante já não valia mais nada. Procurava novos valores. A sensação de mudança não passava. Tirei as roupas. Abri o armário, coloquei outras roupas e um óculos escuros. Era noite mas enxergava tudo. Estranho. Me olhei no espelho. Meu cabelo estava grande e me vi com um inesperado cavanhaque, como se há anos não fizesse a barba. Me senti velho, muito velho. Não fisicamente, mas no interior. Me lembrava de outros fatos. Fatos históricos, passados há anos, há milhares de anos&#8230; Me senti meio&#8230;sábio, meio adivinho, como se já houvera premeditado acontecimentos e ainda fosse capaz de fazê-lo. Me deu um calor. Resolvi tomar um banho. Peguei um chapéu e abri o chuveiro. Nada da sensação passar. O estranho é que comecei a gostar, o que me fez perder o medo da chuva que tinha. Me senti meio maluco, diferente dos outros. Era como se não fosse eu, sabe? Me senti um ator.</p>
<p>Me surpreendi esperando um disco voador , que me faria fugir das mesmices do mundo, quando vi que a terra parou. Só havia eu me movendo. Aproveitei para pegar na guitarra do meu irmão. Embora fosse noite, a terra havia parado mesmo!, então coloquei no máximo volume. Nunca havia tocado guitarra. Toquei como se fosse a guitarra minha amiga, como se já a conhecesse há muito. Creio que fiquei umas duas horas tocando, ao mesmo tempo espantado com o que estava acontecendo. De repente parei. Vi ao longe uma figura luminosa de um trem. O trem veio chegando, chegando&#8230; passou por mim em uma velocidade incrível, através de uma estrada que não existia. Voltei ao normal. Já estava senhor de mim.</p>
<p>Pensei: quando acabar, o maluco sou eu; mas acho que ele queria mesmo era tocar uma guitarrinha.</p>
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		<title>O Carnaval</title>
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		<pubDate>Wed, 17 Oct 2007 00:27:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Declev Dib-Ferreira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>
		<category><![CDATA[Humor]]></category>
		<category><![CDATA[Surreais]]></category>
		<category><![CDATA[Carnaval]]></category>

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		<description><![CDATA[Dona Clotilde já está no escritório do Dr. Alaor. É uma hora da tarde de quarta-feira de cinzas. Veio cedo porque sabe que o patrão é criterioso nos horários e haverá uma reunião às duas horas. Para ela não houve problema de estar lá em plena quarta-feira de cinzas tão cedo; não gosta de carnaval, havia ido com mais algumas amigas da igreja para um retiro no sítio do pastor.

(...)]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center"><strong>O CARNAVAL</strong></p>
<p style="text-align: right"><em><strong>Declev Reynier</strong></em></p>
<p>Dona Clotilde já está no escritório do Dr. Alaor. É uma hora da tarde de quarta-feira de cinzas. Veio cedo porque sabe que o patrão é criterioso nos horários e haverá uma reunião às duas horas. Para ela não houve problema de estar lá em plena quarta-feira de cinzas tão cedo; não gosta de carnaval, havia ido com mais algumas amigas da igreja para um retiro no sítio do pastor.</p>
<p>Seu Alaor chegou logo depois. Às 13h e 30 minutos adentra ele o escritório com uma roupa de árabe, a maleta em uma mão e a outra com o dedo em riste, subindo e descendo, cantando: “Ala-lá-ô ô ô ô ô ô ô , mas que calor ô ô ô ô ô ô&#8230;”. Dona Clotilde de olhos esbugalhadamente abertos e boca idem não conseguiu pronunciar palavra. Seu Alaor ao vê-la parou a cantoria, voltou à cara séria de costume e, em tom ríspido, perguntou: “Posso saber o que a senhora está fazendo aqui assim, fantasiada?”</p>
<p>Como? &#8211; foi só o que conseguiu dizer a, mais atônita ainda, Clotilde.</p>
<p>Por acaso a senhora pensa que ainda é carnaval? Trate de se recompor imediatamente!<br />
E entrou em sua sala, dançando e cantando, mas agora com passos firmes e cara fechada. Bateu a porta com força.</p>
<p>Durante cinco minutos lá ficou a dona Clotilde sentada e muda, de olhos e bocas como eu já disse que estavam, até que chegou o acessor para todos os assuntos externos (boy) e lhe tira do transe. Outro susto. O referido garoto está vestido de pirata, de tapa-olho, espada e tudo.</p>
<p>- Menino! Como é que você vem aqui assim?!? &#8211; quase caiu da cadeira.</p>
<p>- Assim como Cloclô? &#8211; ela não gosta dessas intimidades, e ele sabe disso &#8211; A senhora é que está com uma roupa esquisita, está fantasiada é?</p>
<p>- Como EU fantasiada?, você é que está!</p>
<p>- Hiii&#8230; endoidou&#8230; &#8211; pegou uma pilha de documentos que tinha que entregar e foi para a rua.</p>
<p>Mais uma vez a cena da dona Cloclô, ops!, desculpem, dona Clotilde estatelada na cadeira.<br />
Cinco minutos para as duas horas entra no escritório um grupo de homens vestidos de mulher. Seis ao todo. Entram cantando “Jingle bells, jingle bells, acabou o papel&#8230;” &#8211; não é música de carnaval, mas eles estão bêbados mesmo! &#8211; Dona Clotilde reconhece os acionistas que participarão da reunião.</p>
<p>- Temos uma reunião com o Dr. Alaor, por favor.</p>
<p>A essas alturas já não se surpreendeu tanto, mas continuou de olhos e bocas esbugalhadamente abertos.</p>
<p>- Sim senhor, ele os está aguardando, podem entrar.</p>
<p>- Que roupa estranha a sua, hein?!? &#8211; disse um deles antes de entrar.</p>
<p>Ela não agüentou. Deixou um bilhete em cima da mesa dizendo que estava passando mal e foi para casa. No caminho percebeu que todos, sem exceção, estavam fantasiados. Muitos estavam bêbados, jogavam confetes e serpentinas. Havia palhaços, odaliscas, reis e muitos outros. Estavam trabalhando normalmente, a não ser pelo fato de estarem fantasiados, bêbados e cantando marchinhas de carnaval. Camelôs, lojistas, motoristas de táxis e ônibus, até os guardas, todos estavam assim. “O que será que houve neste carnaval, alguma droga nova?”, pensou.</p>
<p>Chegando em casa tentou dormir para ver se acordava do sonho. Não conseguiu. Se olhou no espelho. Começou a achar-se esquisita, feia, sem graça. Abriu o armário. Achou todas as suas roupas muito estranhas. Foi até a penteadeira, desarrumou todo o cabelo, fez um penteado bem “tchan!”, pintou-se toda bem “cheguei!’, foi até o armário da filha, pegou roupas que ficaram bem justas, com as pernas e barriga de fora, pegou uma bolsinha, abriu a porta de casa e saiu, rodando a bolsinha, fantasiada de prostituta e cantando: “&#8230;mas que calor ô ô ô ô ô ô&#8230;”</p>
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		<title>Mulher Nua</title>
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		<pubDate>Wed, 17 Oct 2007 00:18:45 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Declev Dib-Ferreira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>
		<category><![CDATA[Humor]]></category>
		<category><![CDATA[Mulheres]]></category>
		<category><![CDATA[Surreais]]></category>
		<category><![CDATA[Surreal]]></category>

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		<description><![CDATA[- Você viu?!?

- O quê?

- Ali, naquela janela!

(...)]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center" align="center"><strong>MULHER NUA</strong></p>
<p style="text-align: right" align="center"><strong></strong><strong><em>Declev Reynier</em></strong></p>
<p>- Você viu?!?</p>
<p>- O quê?</p>
<p>- Ali, naquela janela!</p>
<p><span id="more-12"></span>- Qual?</p>
<p>- Ali, aquela daquele prédio branco, a terceira da esquerda para a direita do 2º andar&#8230;</p>
<p>- O que tem ela?</p>
<p>- Apareceu uma mulher nua nela.</p>
<p>- Não brinca!</p>
<p>- É verdade!</p>
<p>- E como você sabe que ela estava nua?</p>
<p>- Eu vi, ué!</p>
<p>- Poxa&#8230;</p>
<p>E ficaram os dois olhando para a janela, na esperança de ver a mulher nua.</p>
<p>Chega um terceiro.</p>
<p>- Ei, o que vocês estão olhando?</p>
<p>- Tem uma mulher nua naquela janela.</p>
<p>- Qual? &#8211; olhos arregalados.</p>
<p>- Aquela daquele prédio branco, a terceira da esquerda para a direita do 2º andar.</p>
<p>- É mesmo?</p>
<p>- É!</p>
<p>Ficaram os três olhando para a janela na esperança de ver a mulher nua. Chegam outras pessoas, fazem a mesma pergunta que todas as pessoas normais fariam (ou pelo menos teriam vontade de fazer) e todos respondem a mesma coisa:</p>
<p>- Tem uma mulher nua naquela janela &#8211; e antes da segunda pergunta que todas as pessoas normais fariam ou pelo menos teriam vontade de fazer, eles já emendam &#8211; ali, naquele prédio branco, a terceira da esquerda para a direita, no 2º andar.</p>
<p>O ajuntamento de gente começou a ficar maior. Foram chegando pessoas de todas as idades, raças, credos e sexos.</p>
<p>Como se ouviam também as mesmas perguntas e respostas em inglês, creio que até de outras nacionalidades.<br />
Todos queriam ver a tal mulher nua.</p>
<p>Já estavam olhando por cerca de trinta minutos quando a rua começou a ficar totalmente entupida. As pessoas já não cabiam na calçada, ficavam no meio da rua; e não adiantavam as buzinas, era por uma “boa” causa. Mas, de qualquer forma, ao avisarem aos motoristas do que se tratava, os próprios saíam de seus carros e ficavam olhando.</p>
<p>Veio a polícia saber o que estava acontecendo. E também ficou ali olhando para a janela daquele prédio branco, a terceira da esquerda para a direita, do 2º andar.</p>
<p>O bairro, ou pelo menos aquela rua e adjacências, já estava totalmente parado, com uma multidão olhando para o alto, quando algo se mexeu na janela.</p>
<p>- Olhem, olhem!</p>
<p>- Silêncio!</p>
<p>- É, silêncio!, senão vai espantar!</p>
<p>- Shsssss! (com o dedo em riste encostado na boca fazendo biquinho)</p>
<p>- Ooooooohhhh! &#8211; toda a multidão fez este “ooooooohhhh!” ao mesmo tempo.</p>
<p>Apareceu realmente uma mulher nua na janela. Ela viu aquela multidão olhando para ela e, sem entender nada, ficou ali olhando.</p>
<p>A mulher nua olhando a multidão, a multidão olhando a mulher nua&#8230;</p>
<p>- É, uma mulher nua&#8230;</p>
<p>- É&#8230;</p>
<p>- É mesmo&#8230;</p>
<p>Começaram a ir embora, um a um. O grupo foi se dispersando, cada qual para o seu canto, cada um seguindo o seu caminho, continuando a fazer o que estava fazendo há uma hora e meia atrás. A polícia se foi, os motoristas entraram em seus carros. A rua já estava vazia. A multidão se dispersou.</p>
<p>A mulher entrou. E se vestiu.</p>
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		<title>A Compra</title>
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		<pubDate>Wed, 17 Oct 2007 00:17:51 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Declev Dib-Ferreira</dc:creator>
				<category><![CDATA[Contos]]></category>
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		<category><![CDATA[Mulheres]]></category>
		<category><![CDATA[Surreais]]></category>
		<category><![CDATA[Surreal]]></category>

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		<description><![CDATA[As mulheres, lindas modelos, estavam em volta dos carros. Todos zero Qm, últimos lançamentos, chamando atenção. Elas estavam sorridentes, bem maquiadas, de bleiser vermelho, decote generoso na blusa, mini mini-saia preta com meia calça também preta e sapatos chiquérrimos de salto alto. Ele, quando viu a cena, gostou logo de cara. Andou em volta, olhou, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>As mulheres, lindas modelos, estavam em volta dos carros. Todos zero Qm, últimos lançamentos, chamando atenção.</p>
<p>Elas estavam sorridentes, bem maquiadas, de bleiser vermelho, decote generoso na blusa, mini mini-saia preta com meia calça também preta e sapatos chiquérrimos de salto alto.<br />
Ele, quando viu a cena, gostou logo de cara. Andou em volta, olhou, olhou&#8230; viu as cores, as traseiras, as dianteiras, parece que viu por dentro e por fora. Então perguntou ao vendedor, de calça cinza, camisa verde escuro e gravata quadriculada de azul e vermelho (roupa típica de vendedor):</p>
<p>- Quanto é?<br />
- Qual delas?<br />
- Aquela morena ali&#8230;?<br />
- Ah, é um ótimo espécime, cabelos negros ondulados, olhos castanhos claros, pernas bem torneadas, uma ótima escolha senhor, veja só que sorriso (aquele papo de vendedor, sabem como é&#8230;), e o melhor: custa apenas isto, uma verdadeira pechincha!<br />
- É&#8230; acho que vou levar&#8230;<br />
- Ótima aquisição senhor! E ainda damos garantia!</p>
<p>O vendedor pôs um lacinho tipo de presente na cabeça da mulher, o comprador colocou-a na mala de seu carro e foi para casa, satisfeito com a nova compra.</p>
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