Textos para a Categoria ‘Surreais’

Encarnação repentina

Por Declev Dib-Ferreira em 25/03/2008

ENCARNAÇÃO REPENTINA

Declev Reynier

Comecei a me sentir meio estranho… Uma sensação esquisita, sei lá… Era como se eu soubesse mais do que sei, lembrasse mais do que poderia. Como se tivesse recordações de coisas que não vivi. Comecei a me lembrar de pessoas como velhas conhecidas – pessoas que não conheço, pelo menos pessoalmente. Me lembrei e me deu uma certa saudade. Saudade? Tudo bem, conheço-os de nome, gosto de seus trabalhos, já li e ouvi alguns, mas daí a ter saudades?

Me deu de repente uma súbita vontade de casar com a lua. Fui à janela e lá estava ela. Quis pegar uma escada para ir até lá, mas pus o racional para funcionar e me contive. Fechei a janela num tranco, como que a fugir do sentimento. Uma angústia me subiu, como que repensasse minha vida inteira, me dando vontade de mudar. Mudar tudo. Mudar de opinião sobre tudo. Tudo o que pensava, naquele instante já não valia mais nada. Procurava novos valores. A sensação de mudança não passava. Tirei as roupas. Abri o armário, coloquei outras roupas e um óculos escuros. Era noite mas enxergava tudo. Estranho. Me olhei no espelho. Meu cabelo estava grande e me vi com um inesperado cavanhaque, como se há anos não fizesse a barba. Me senti velho, muito velho. Não fisicamente, mas no interior. Me lembrava de outros fatos. Fatos históricos, passados há anos, há milhares de anos… Me senti meio…sábio, meio adivinho, como se já houvera premeditado acontecimentos e ainda fosse capaz de fazê-lo. Me deu um calor. Resolvi tomar um banho. Peguei um chapéu e abri o chuveiro. Nada da sensação passar. O estranho é que comecei a gostar, o que me fez perder o medo da chuva que tinha. Me senti meio maluco, diferente dos outros. Era como se não fosse eu, sabe? Me senti um ator.

Me surpreendi esperando um disco voador , que me faria fugir das mesmices do mundo, quando vi que a terra parou. Só havia eu me movendo. Aproveitei para pegar na guitarra do meu irmão. Embora fosse noite, a terra havia parado mesmo!, então coloquei no máximo volume. Nunca havia tocado guitarra. Toquei como se fosse a guitarra minha amiga, como se já a conhecesse há muito. Creio que fiquei umas duas horas tocando, ao mesmo tempo espantado com o que estava acontecendo. De repente parei. Vi ao longe uma figura luminosa de um trem. O trem veio chegando, chegando… passou por mim em uma velocidade incrível, através de uma estrada que não existia. Voltei ao normal. Já estava senhor de mim.

Pensei: quando acabar, o maluco sou eu; mas acho que ele queria mesmo era tocar uma guitarrinha.

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O Carnaval

Por Declev Dib-Ferreira em 16/10/2007

O CARNAVAL

Declev Reynier

Dona Clotilde já está no escritório do Dr. Alaor. É uma hora da tarde de quarta-feira de cinzas. Veio cedo porque sabe que o patrão é criterioso nos horários e haverá uma reunião às duas horas. Para ela não houve problema de estar lá em plena quarta-feira de cinzas tão cedo; não gosta de carnaval, havia ido com mais algumas amigas da igreja para um retiro no sítio do pastor.

Seu Alaor chegou logo depois. Às 13h e 30 minutos adentra ele o escritório com uma roupa de árabe, a maleta em uma mão e a outra com o dedo em riste, subindo e descendo, cantando: “Ala-lá-ô ô ô ô ô ô ô , mas que calor ô ô ô ô ô ô…”. Dona Clotilde de olhos esbugalhadamente abertos e boca idem não conseguiu pronunciar palavra. Seu Alaor ao vê-la parou a cantoria, voltou à cara séria de costume e, em tom ríspido, perguntou: “Posso saber o que a senhora está fazendo aqui assim, fantasiada?”

Como? – foi só o que conseguiu dizer a, mais atônita ainda, Clotilde.

Por acaso a senhora pensa que ainda é carnaval? Trate de se recompor imediatamente!
E entrou em sua sala, dançando e cantando, mas agora com passos firmes e cara fechada. Bateu a porta com força.

Durante cinco minutos lá ficou a dona Clotilde sentada e muda, de olhos e bocas como eu já disse que estavam, até que chegou o acessor para todos os assuntos externos (boy) e lhe tira do transe. Outro susto. O referido garoto está vestido de pirata, de tapa-olho, espada e tudo.

РMenino! Como ̩ que voc̻ vem aqui assim?!? Рquase caiu da cadeira.

– Assim como Cloclô? – ela não gosta dessas intimidades, e ele sabe disso – A senhora é que está com uma roupa esquisita, está fantasiada é?

– Como EU fantasiada?, você é que está!

– Hiii… endoidou… – pegou uma pilha de documentos que tinha que entregar e foi para a rua.

Mais uma vez a cena da dona Cloclô, ops!, desculpem, dona Clotilde estatelada na cadeira.
Cinco minutos para as duas horas entra no escritório um grupo de homens vestidos de mulher. Seis ao todo. Entram cantando “Jingle bells, jingle bells, acabou o papel…” – não é música de carnaval, mas eles estão bêbados mesmo! – Dona Clotilde reconhece os acionistas que participarão da reunião.

РTemos uma reunịo com o Dr. Alaor, por favor.

A essas alturas já não se surpreendeu tanto, mas continuou de olhos e bocas esbugalhadamente abertos.

– Sim senhor, ele os está aguardando, podem entrar.

– Que roupa estranha a sua, hein?!? – disse um deles antes de entrar.

Ela não agüentou. Deixou um bilhete em cima da mesa dizendo que estava passando mal e foi para casa. No caminho percebeu que todos, sem exceção, estavam fantasiados. Muitos estavam bêbados, jogavam confetes e serpentinas. Havia palhaços, odaliscas, reis e muitos outros. Estavam trabalhando normalmente, a não ser pelo fato de estarem fantasiados, bêbados e cantando marchinhas de carnaval. Camelôs, lojistas, motoristas de táxis e ônibus, até os guardas, todos estavam assim. “O que será que houve neste carnaval, alguma droga nova?”, pensou.

Chegando em casa tentou dormir para ver se acordava do sonho. Não conseguiu. Se olhou no espelho. Começou a achar-se esquisita, feia, sem graça. Abriu o armário. Achou todas as suas roupas muito estranhas. Foi até a penteadeira, desarrumou todo o cabelo, fez um penteado bem “tchan!”, pintou-se toda bem “cheguei!’, foi até o armário da filha, pegou roupas que ficaram bem justas, com as pernas e barriga de fora, pegou uma bolsinha, abriu a porta de casa e saiu, rodando a bolsinha, fantasiada de prostituta e cantando: “…mas que calor ô ô ô ô ô ô…”

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Mulher Nua

Por Declev Dib-Ferreira em 16/10/2007

MULHER NUA

Declev Reynier

РVoc̻ viu?!?

РO qu̻?

– Ali, naquela janela!


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A Compra

Por Declev Dib-Ferreira em 16/10/2007

As mulheres, lindas modelos, estavam em volta dos carros. Todos zero Qm, últimos lançamentos, chamando atenção.

Elas estavam sorridentes, bem maquiadas, de bleiser vermelho, decote generoso na blusa, mini mini-saia preta com meia calça também preta e sapatos chiquérrimos de salto alto.
Ele, quando viu a cena, gostou logo de cara. Andou em volta, olhou, olhou… viu as cores, as traseiras, as dianteiras, parece que viu por dentro e por fora. Então perguntou ao vendedor, de calça cinza, camisa verde escuro e gravata quadriculada de azul e vermelho (roupa típica de vendedor):

РQuanto ̩?
– Qual delas?
– Aquela morena ali…?
– Ah, é um ótimo espécime, cabelos negros ondulados, olhos castanhos claros, pernas bem torneadas, uma ótima escolha senhor, veja só que sorriso (aquele papo de vendedor, sabem como é…), e o melhor: custa apenas isto, uma verdadeira pechincha!
– É… acho que vou levar…
– Ótima aquisição senhor! E ainda damos garantia!

O vendedor pôs um lacinho tipo de presente na cabeça da mulher, o comprador colocou-a na mala de seu carro e foi para casa, satisfeito com a nova compra.

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