Textos para a Categoria ‘Sofrimento’

Vida Oca

Por Declev Dib-Ferreira em 26/08/2011

VIDA OCA

 Declev Reynier

Resolvi me perguntar
Para onde estava indo
Descobri apavorado,
Transtornado
Que eu não estava indo,
Estava parado

Fiquei surpreso
Eu estava preso
Estava preso a minha própria vida
Que estava indo ao sabor do vento
E eu não indo

Pensei: para onde quero ir?
Eu não sei,
Só sei que quero ir,

Crescer, caminhar

Me perguntei:
Para onde você quer ir?

Infelizmente respondi: eu não sei
Eu não sei,
Nem eu mesmo sei!

Metas, quero metas
Minha vida está parada
Mas eu caminhando – em círculos

E quem caminha em círculos fica tonto
Como um mosquito que leva um tapa
Ou quando se joga inseticida em uma barata

Nós acabamos caindo,
Apodrecendo,
Envelhecendo no pior sentido da palavra

Minha vida está parada
E vida é como água
Se ficarmos parados apodrecemos
Nossa mente se polui
E bichos aproveitam
Para tirar proveito
Para colocarem seus ovos
Que gerarão larvas
Que novos bichos virarão;

Bichos que corroem
Bichos que corroem e nos ocam

E como um saco vazio,
Não conseguimos nem nos manter em pé.

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Morte

Por Declev Dib-Ferreira em 23/08/2011

MORTE

 Declev Reynier 

Sentimento estranho esse da morte
Perda, saudade, vazio, tudo se sente
Quem estava em nosso meio a um instante
Agora não mais se faz presente
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O palhaço

Por Declev Dib-Ferreira em 24/03/2008

O PALHAÇO

Declev Reynier

Ele só vai trabalhar à noite, mas os dias não estão muito bons para ele…

Aliás, a vida não está sorrindo ultimamente para este pobre sujeito. Tem dívidas, muitas dívidas, faz uma dívida maior para cobrir uma menor. Procura outros empregos, mas a vida não está fácil e todos os empregos – até de porteiro – exigem experiência e referências, mas como um novato pegar experiência se todos os empregos pedem experiência?

Seus amigos o abandonaram, estão bem, empregados, com um dinheirinho para a cerveja, mulher e filhos. Não têm tempo para ficar ouvindo suas lamentações ou praticando filantropia. Sente-se só.

Quando numa fase melhorzinha, ele tinha lá o seu fusquinha, velho, mas que o levava com a esposa e as duas filhas para dar umas voltas no fim de semana pelos parques de seu bairro e à praia (por que é de graça). Só que esse carro é muito visado no Rio de Janeiro. Da última vez que fizeram compras de mês (quando o dinheiro ainda dava) e o dito cujo estava cheio de sacolas de supermercado, ao deixarem por um momento sozinho (voltaram para pegar um saquinho de azeitona que esqueceram), foi roubado. Roubado! Com todas as compras dentro. Imaginem o desespero. Não, não imaginem para não caírem em lágrimas.

Pelo menos ele tinha sua adorável esposa e suas adoráveis filhas.

Tinha, porque o mundo quase caiu em sua cabeça aquele dia em que ia fazer uma viagem para outra cidade tentar um emprego e a esposa mandou as filhas para a casa da avó para poder “arrumar a casa” sossegada. Ele perdeu o ônibus e automaticamente a entrevista e o emprego. Não sabe ainda se foi azar ou sorte. Chegou cedo em casa, abriu a porta e por um momento chegou a pensar que a esposa estava passando mal no quarto, pelos gemidos, urros, gritos e sussurros que dava, mas, qual sua surpresa ao ver a cena chocante: a esposa “cavalgando” o padeiro da esquina a quem ele estava devendo há mais de três meses, vestida só com um chapéu de caubói. Não é preciso dizer que toda a vizinhança ficou sabendo… Vocês conhecem bairro de periferia, todos sabem da vida de todos, principalmente quando saem duas pessoas peladas pelo meio da rua – e não são marido e esposa – com um homem de olhos esbugalhados e vermelhos correndo atrás – o marido – com uma faca de cozinha na mão e a cueca do outro na outra. Depois de tudo calmo ela ainda tentou se explicar, dizendo que assim ele, o padeiro, perdoaria a dívida dele, o corno. Ah…, pensou, por isso que o açougueiro, o dono da barraca da feira aos domingos e o diretor da escola das filhas não estavam mais cobrando aquelas dívidas…

Divórcio. A mulher, com a orientação do advogado, declarou em prantos, na frente de todos que estavam ali para ouvir (e eu estava) que o nosso amigo não estava mais “dando no couro” (expressão da própria), não estando, portanto, cumprindo sua função conjugal, tendo ela que procurar outros homens para se sentir mulher novamente. Bem, tirando aquelas duas vezes mês passado que “ele” não subiu, coisa que me contou chorando como uma criança me pedindo segredo (que eu guardei até aqui, espero que você também o faça), isso é uma mentira. Mas ela conseguiu, ficou com a guarda das crianças.

Há uma semana estava sozinho em casa, havia preparado o almoço (meio saquinho de macarrão instantâneo e duas salsichas fritas) quando chegou aquele senhor de terno e gravata, bem alinhado, com a barba bem feita, cabelos cuidadosamente alinhados, com a ordem de despejo na mão. Claro, não pagava o aluguel, água e luz há muitos meses. Estava na rua agora. Ele tinha um pequeno prazo para se mudar, mas foi naquele dia mesmo para casa dos pais. Como esta já era pequena para os pais e o irmão que lá morava, sobrou para ele o sofá da sala e suas poucas coisas foram guardadas no quartinho de ferramentas e outras bugigangas.

Por sorte, lendo o jornal que seu pai comprara, nas páginas de empregos havia um que não exigia experiência – davam treinamento – e ele foi ver. Estava contratado! Era para trabalhar basicamente as noites, teria uma parte do dia para fazer outras coisas. A vida começava a melhorar. Tinha um uniforme, uma roupa especial. No dia seguinte foi para o seu primeiro dia no emprego. Era numa casa, em uma festinha de criança. O resto do grupo já estava lá. Ele vestiu sua roupa, passou a maquilagem e foi trabalhar. Era o assistente, o que estava lá para levar as tortas na cara, cair nas brincadeiras todas que o “astro” do show fazia.

Depois de tudo o que passou por esses tempos, teria de fazer os outros rirem com as trapalhadas e situações embaraçosas que se metia ali no palquinho da festa.

A arte imita a vida, mas não importa, um palhaço é sempre um palhaço.

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Vida assim que eu não quis

Por Declev Dib-Ferreira em 18/03/2008

VIDA ASSIM QUE EU NÃO QUIS

Declev Reynier

A vontade que tenho
Ou a sensação que sinto,
É que murcho ao sol
Ou um peixe no anzol;

É que meu corpo
Curva-se
Apertada que está
Minha alma de amar;

Me sinto um corcunda
Ou um molusco fechado na concha,
Que me circunda uma nuvem negra
E um desabamento deslancha;

É assim que estou
Com um punho cerrado no peito
Pensando em mais nada
De mente vazia

Além do rosto da amada,
Que diz não estar feliz
Me fazendo morrer pra vida
Vida, assim, que eu não quis.

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Não consigo ser feliz

Por Declev Dib-Ferreira em 01/12/2007

NÃO CONSIGO SER FELIZ

Declev Reynier

Não consigo ser feliz.
Não consigo ser feliz nem estar em paz
E espero que você também não esteja conseguindo
Porque não é possível ser feliz neste mundo que fizemos
Não é possível ser feliz e andar pelas calçadas
Passando por cima de corpos deitados
Seminus rotos maltratados sujos esquálidos
São crianças jovens adultos velhos homens mulheres nadas…
Não é possível ser feliz
E ler o jornal, manchado de sangue, corrupção e maquiagem
Não é possível ser feliz
Sabendo o que se sabe
Ouvindo o que se ouve
Vendo o que se vê
E o que os olhos não vêem, o coração deve sentir
Não é possível ser feliz sabendo das guerras, massacres, covardias pelo mundo
Sabendo que alguém, neste exato momento,
Está se apropriando do dinheiro que salvaria e melhoraria muitas vidas
Através da saúde, da educação, do transporte, da moradia, do trabalho
Que hoje, por conta disso, muitos não têm
Não é possível ser feliz
Não sendo possível mudar tudo
Estando algemado
Preso a este mundo.

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Alimento

Por Declev Dib-Ferreira em 25/11/2007

Tomo café da manhã
De solidão
Almoço nada
Lancho angústia
Janto uma saudade danada
Vou dormir saciado de sofrimento
E acordo para, mais um dia,
Me alimentar de tormento

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Quebra-cabeças

Por Declev Dib-Ferreira em 10/11/2007

QUEBRA-CABEÇAS

Declev Reynier

Juntei os caquinhos todos e tentei colar
Mas não havia cola
Ainda não há cola

Tentei encaixar algumas peças
Têm várias faltando
Também!, há peças para tudo quanto é lado!

Fui procurar de novo
Vi alguns pedaços nas mãos de algumas pessoas
Vi outras colocando nos bolsos
Algumas pisavam sem se dar conta
E muitas vezes percebi pisadas propositais,
que quebravam os cacos em centenas de outros pedaços.

Bem mais difícil de colar.

Saí catando os pedaços com todo mundo e
Utilizando um pincel, varri o que estava no chão com cuidado,
Para cima de uma folha de papel
(Que depois percebi que ficou marcada)

Coloquei tudo num envelope
(Que utilizaria depois para mandar algo a alguém)
E comecei o trabalho de reconstituição.
Até que ficou legal.

Está meio frágil porque a cola que encontrei – o tempo –
Demora um pouco para secar

Achei tudo, quer dizer
Quase tudo.
Coloquei os braços, pernas, narigão, orelhinha,
quase todos os dentes (porque me falta um mesmo) e tudo o mais.

Só ficou faltando uma coisa no meu peito…
Tá tão vazio aqui…
Acho que esqueci algo em algum lugar…

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Tu és assim

Por Declev Dib-Ferreira em 10/11/2007

TU ÉS ASSIM

Declev Reynier

Tu és o espinho cravado em meu peito
Tu és a farpa em meu dedo
Tu és um dia de azia sem um bicabornato por perto
A ressaca da manhã seguinte transportada ao deserto

Tu és a dor que há em cada amor
A força que faz o pão cair de manteiga pra baixo
A barata voadora que entra no quarto escuro

Tu és o muro que separa dois mundos
O chão imundo em que tropeço e caio
Tu és um raio que cai duas vezes no mesmo local

Eu peço açúcar, tu me dás sal
Eu peço um beijo, etc. e tal
Tu não me dás nada,
Tal qual quem nega água

Tu és assim
Assim tu fostes
Passastes por mim de dia
Me deixando só à noite…

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