Os perigos que passo
OS PERIGOS QUE PASSO
Declev Reynier
Esta vida é realmente perigosa. Quando paro para pensar os perigos que já passei e que passo todos os dias, me tremo todo. Fico com medo até de sair de casa, de pôr os pés na rua.
Imaginem vocês que eu saio de casa todos os dias. É quase um absurdo. Saio de casa todos os dias! Olha o risco que corro! Posso ser atropelado, assaltado, raptado, escarafunchado, picado por uma abelha, “etc…ado”. Posso até pisar num cocô!
Sempre que saio de casa atravesso ruas. E se eu me distrair, tropeçar ou qualquer coisa assim? E se eu escorregar? E se cair um monte de moedinhas no meio do trajeto de uma calçada a outra e eu, no ímpeto de catá-las, me agachar à frente de um ônibus ou caminhão em alta velocidade (como aliás, eles sempre andam)? Ou, e se neste mesmo trajeto, vier um ciclista descuidado na contramão e me acertar em cheio, como acertaram a minha vozinha de 74 anos há pouco tempo? (ela já está bem, obrigado!). [Nota: crônica antiga. Minha vó já faleceu há anos]. E se um dos motoristas daltônicos (85 a 90% ao todo), que não enxergam direito quando um sinal está vermelho ou verde, furar um sinal vermelho e me atropelar? E se… UFA!… atravessar ruas não é nada fácil!
Agora pasmem: eu, quase sempre, pego ônibus! Eu pego ônibus!!! Só de imaginar, eu, em pé em uma parada de ônibus, com aquele solzão na cabeça, correndo o risco de tomar banho de água suja (porque, se você já pegou ônibus em sua vida, sabe que, tenha o sol que tiver, há uma poça d’água em frente à parada), respirando todos os gases tóxicos que os veículos jogam em cima da gente – o que pode resultar em um câncer de pulmão, entre outras doenças – já começo a tossir desenfreadamente… (pausa para tosse). E o risco que corro de tomar um tombo ao subir nos ônibus? Aliás, um enorme tombo. Porque volta e meia os motoristas não param para você entrar, principalmente se você é homem, jovem e estiver sozinho na parada. Aí é fatal. Você tem que se agarrar com todas as forças na barra e se impulsionar para dentro do ônibus em movimento. Que risco! Foi numa dessas que quase levei um tombo espetacular, e, depois de quase me estatelar no asfalto o motorista, creio que ficou com a consciência pesada, parou para eu entrar.
Entrar nos ônibus já daria uma epopeia, mas lá dentro as coisas não melhoram. Corro o risco de ser assaltado (o que já o fui algumas vezes), e o risco de algum acidente, visto que os motoristas são “educadíssimos” e dirigem como se estivessem em uma máquina de vídeo-game (com raras exceções).
Falando na educação dos motoristas e trocadores, qualquer usuário deste tipo de transporte de massa sabe que corre o risco de ser maltratado, xingado, cuspido e agredido por estes trabalhadores – também com suas exceções e talvez devido ao stress a que são acometidos no trânsito.
Você pode dizer: “Ah, vá de táxi”, mas você já parou para pensar no perigo de se tomar um táxi? E se o taxista for um assaltante? E se for um barbeiro? E se ele leva seus passageiros para cantos escuros e os assalta? e se os… estupra?!? ARGH!!!
Pensa que tudo pode ser resolvido se você tiver um carro? E todos os acidentes que acontecem todos os dias? E as dezenas, centenas de pessoas que ficam espremidas entre os destroços do que outrora fora seus carros? Eu passo por este risco acidental quase todos os dias.
Você já andou pelos loucos trânsitos das grandes cidades dentro de um fusquinha [tá, essa crônica é antiga!] com mais umas três ou quatro pessoas? Uau! É como uma lata de sardinha na despensa no meio de latas de leite em pó das grandes quando cai a prateleira. Com a diferença que não são sardinhas, são pessoas que estão na “lata”. Já está me dando um ataque de claustrofobia.
E por falar em claustrofobia, vocês não vão nem acreditar nos riscos que eu corro de vez em quando, quando vou a um edifício: primeiro: eu pego elevador, com todos os riscos que isso pode acarretar, como ficar com a perna presa na porta, acabar a eletricidade e o elevador parar e eu morrer sufocado por falta de ar, ou até a queda do aparelho. Queda sim, porque elevador pode ser muito seguro, mas conheço umas histórias de quedas. Ainda acho que me arrisco muito. E quando estou lá em cima no prédio, o risco de incêndio? O risco de desabamento, o risco de atentado? Há casos e mais casos de todos estes casos. [Escrito ANTES de 11/09/11]
Sei que a estas alturas você deve estar com um início de depressão e pavor de sair às ruas, mas falando em altura há um risco que toda pessoa que viaja grandes distâncias (como eu de vez em quando) é quase que obrigado a correr: o risco de estabacar lá de cima com avião e tudo. É como uma roleta russa. Você entra no avião e sabe-se lá de que jeito você vai descer. Que vai descer vai! Tenho certeza que você não vai à cabine do piloto para ver se há piloto ou se o piloto têm o brevê.
Depois alguém pergunta para você: “Fez boa viajem?” e você responde: “Claro!”. Você diz “claro” porque sabe que só há dois tipos de viagens de avião: as boas (nas quais você desce vivo) e as ruins (nas quais você já imagina). E sempre tem algum engraçadinho lá em cima quando o avião está passando por uma grande turbulência e tremendo como liquidificador. Você todo nervoso e ele fazendo piadinhas:
__ Este avião é seu?
__ Não!
__ Você tem ações desta companhia?
__ Não!
__ Então está preocupado com o quê? Deixa esta merda cair!
__ Rá… rá… rá…
É, a vida não está fácil. Quanto mais máquinas inventam, mais perigo corro. Mas o meu grande medo, que, sinto dizer, todos vocês também correm, é estar calmamente andando pela rua e cruzar com um…, com um…, político! – Cruz-Credo, isola na madeira, pé-de-pato, mangalô três vezes!!! – Melhor nem pensar nisso!
Com as suas raras exceções, é claro!