Os perigos que passo

Por Declev Dib-Ferreira em 04/09/2011

OS PERIGOS QUE PASSO

Declev Reynier

Esta vida √© realmente perigosa. Quando paro para pensar os perigos que j√° passei e que passo todos os dias, me tremo todo. Fico com medo at√© de sair de casa, de p√īr os p√©s na rua.

Imaginem voc√™s que eu saio de casa todos os dias. √Č quase um absurdo. Saio de casa todos os dias! Olha o risco que corro! Posso ser atropelado, assaltado, raptado, escarafunchado, picado por uma abelha, ‚Äúetc…ado‚ÄĚ. Posso at√© pisar num coc√ī!

Sempre que saio de casa atravesso ruas. E se eu me distrair, trope√ßar ou qualquer coisa assim? E se eu escorregar? E se cair um monte de moedinhas no meio do trajeto de uma cal√ßada a outra e eu, no √≠mpeto de cat√°-las, me agachar √† frente de um √īnibus ou caminh√£o em alta velocidade (como ali√°s, eles sempre andam)? Ou, e se neste mesmo trajeto, vier um ciclista descuidado na contram√£o e me acertar em cheio, como acertaram a minha vozinha de 74 anos h√° pouco tempo? (ela j√° est√° bem, obrigado!). [Nota: cr√īnica antiga. Minha v√≥ j√° faleceu h√° anos]. E se um dos motoristas dalt√īnicos (85 a 90% ao todo), que n√£o enxergam direito quando um sinal est√° vermelho ou verde, furar um sinal vermelho e me atropelar? E se… UFA!… atravessar ruas n√£o √© nada f√°cil!

Agora pasmem: eu, quase sempre, pego √īnibus! Eu pego √īnibus!!! S√≥ de imaginar, eu, em p√© em uma parada de √īnibus, com aquele solz√£o na cabe√ßa, correndo o risco de tomar banho de √°gua suja (porque, se voc√™ j√° pegou √īnibus em sua vida, sabe que, tenha o sol que tiver, h√° uma po√ßa d‚Äô√°gua em frente √† parada), respirando todos os gases t√≥xicos que os ve√≠culos jogam em cima da gente – o que pode resultar em um c√Ęncer de pulm√£o, entre outras doen√ßas – j√° come√ßo a tossir desenfreadamente… (pausa para tosse). E o risco que corro de tomar um tombo ao subir nos √īnibus? Ali√°s, um enorme tombo. Porque volta e meia os motoristas¬† n√£o¬† param¬† para voc√™ entrar, principalmente se voc√™ √© homem, jovem e estiver sozinho na parada. A√≠ √© fatal. Voc√™ tem que se agarrar com todas as for√ßas na barra e se impulsionar para dentro do √īnibus em movimento. Que risco! Foi numa dessas que quase levei um tombo espetacular, e, depois de quase me estatelar no asfalto o motorista, creio que ficou com a consci√™ncia pesada, parou para eu entrar.

Entrar nos √īnibus j√° daria uma epopeia, mas l√° dentro as coisas n√£o melhoram. Corro o risco de ser assaltado (o que j√° o fui algumas vezes), e o risco de¬†algum acidente, visto que os motoristas s√£o ‚Äúeducad√≠ssimos‚ÄĚ e dirigem como se estivessem em uma m√°quina de v√≠deo-game (com raras exce√ß√Ķes).

Falando na educa√ß√£o dos motoristas e trocadores, qualquer usu√°rio deste tipo de transporte de massa sabe que corre o risco de ser maltratado, xingado, cuspido e agredido por estes trabalhadores – tamb√©m com suas exce√ß√Ķes e talvez devido ao stress a que s√£o acometidos no tr√Ęnsito.

Voc√™ pode dizer: ‚ÄúAh, v√° de t√°xi‚ÄĚ, mas voc√™ j√° parou para pensar no perigo de se tomar um t√°xi? E se o taxista for um assaltante? E se for um barbeiro? E se ele leva seus passageiros para cantos escuros e os assalta? e se os… estupra?!?¬† ARGH!!!

Pensa que tudo pode ser resolvido se você tiver um carro? E todos os acidentes que acontecem todos os dias? E as dezenas, centenas de pessoas que ficam espremidas entre os destroços do que outrora fora seus carros? Eu passo por este risco acidental quase todos os dias.

Voc√™ j√° andou pelos loucos tr√Ęnsitos das grandes cidades dentro de um fusquinha [t√°, essa cr√īnica √© antiga!] com mais umas tr√™s ou quatro pessoas? Uau! √Č como uma lata de sardinha na despensa no meio de latas de leite em p√≥ das grandes quando cai a prateleira. Com a diferen√ßa que n√£o s√£o sardinhas, s√£o pessoas que est√£o na ‚Äúlata‚ÄĚ. J√° est√° me dando um ataque de claustrofobia.

E por falar em claustrofobia, vocês não vão nem acreditar nos riscos  que  eu  corro  de  vez   em  quando,  quando  vou  a  um  edifício: primeiro:  eu pego elevador, com todos os riscos que isso pode acarretar, como ficar com a perna presa na porta, acabar a eletricidade e o elevador parar e eu morrer sufocado por falta de ar, ou até a queda do aparelho. Queda sim, porque elevador pode ser muito seguro, mas conheço umas histórias de quedas. Ainda acho que me arrisco muito. E quando estou lá em cima no prédio, o risco de incêndio? O risco de desabamento, o risco de atentado? Há casos e mais casos de todos estes casos. [Escrito ANTES de 11/09/11]

Sei que a estas alturas voc√™ deve estar com um in√≠cio de depress√£o e pavor de sair √†s ruas, mas falando em altura h√° um risco que toda pessoa que viaja grandes dist√Ęncias (como eu de vez em quando) √© quase que obrigado a correr: o risco de estabacar l√° de cima com avi√£o e tudo. √Č como uma roleta russa. Voc√™ entra no avi√£o e sabe-se l√° de que jeito voc√™ vai descer. Que vai descer vai! Tenho certeza que voc√™ n√£o vai √† cabine do piloto para ver se h√° piloto ou se o piloto t√™m o brev√™.

Depois algu√©m pergunta para voc√™: ‚ÄúFez boa viajem?‚ÄĚ e voc√™ responde: ‚ÄúClaro!‚ÄĚ. Voc√™ diz¬† ‚Äúclaro‚ÄĚ porque sabe que s√≥ h√° dois tipos de viagens de avi√£o: as boas (nas quais voc√™ desce vivo) e as ruins (nas quais voc√™ j√° imagina). E sempre tem algum engra√ßadinho l√° em cima quando o avi√£o est√° passando por uma grande turbul√™ncia e tremendo como liquidificador. Voc√™ todo nervoso e ele fazendo piadinhas:

__ Este avião é seu?

__ N√£o!

__ Voc√™ tem a√ß√Ķes desta companhia?

__ N√£o!

__ Então está preocupado com o quê? Deixa esta merda cair!

__ R√°… r√°… r√°…

√Č, a vida n√£o est√° f√°cil. Quanto mais m√°quinas inventam, mais perigo corro. Mas o meu grande medo, que, sinto dizer, todos voc√™s tamb√©m correm,¬† √© estar calmamente andando pela rua e cruzar com um…, com um…, pol√≠tico! – Cruz-Credo, isola na madeira, p√©-de-pato, mangal√ī tr√™s vezes!!! – Melhor nem pensar nisso!

Com as suas raras exce√ß√Ķes, √© claro!

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