O cara que não gostava de enterros

Por Declev Dib-Ferreira em 29/03/2008

O CARA QUE NÃO GOSTAVA DE ENTERROS

Declev Reynier

Ele não gosta de enterros. Fica nervoso, sua, não sabe o que dizer à família, sempre dá vexame. Por isso ficou quase transparente quando soube da morte do primo. Menos porque era primo, pois estavam meio afastados, muito tempo sem se ver, do que pela perspectiva do enterro. “Tem que ir, família é família!” sentenciou a mãe, e completou: “e lembro muito bem de quando vocês eram crianças e ele veio ao enterro do seu cachorrinho de estimação”. É, tinha que ir, não queria ser injusto.

Para não começar errado, foi de terno negro, bem alinhado.

Lá chegando estavam todos de roupa informal, coloridas, alguns até de bermuda e camiseta. O coração bateu forte. Foi falar com outro primo. “Ele pediu à mãe, quando moribundo, que não queria enterro com cara de enterro, que as pessoas viessem com roupas coloridas, não te avisaram?”.

Não avisaram. Até o destino prega peças para ele em enterros.

Foi falar com sua tia, a mãe do morto. “Meus parabéns!”, ele disse. Nunca sabe o que dizer nessas horas. Confundiu as frases, essas frases decoradas que usamos nos mais diversos eventos: “Parabéns, você merece!”, “Muitos anos de vida!”, “Tudo de bom!”, “Espero que sejam muitos felizes!”, essas coisas. Sua tia parou de chorar e olhou para ele, assim como quem estava por perto e ouviu.

Saiu de fininho; se tentar consertar, piora.

Durante o velório estavam todos sérios, consternados, muitos chorando, se agarrando ao caixão e ele, nervoso, pensando no que mais poderia acontecer, não conseguiu controlar, começou a rir de nervoso (acontece com algumas pessoas, com ele, em enterros). Não estava conseguindo nem disfarçar, começou a ficar vermelho, colocou a mão na boca, tentava se controlar quando um de seus primos o abraçou chorando e disse: “não chore primo, todos vamos sentir falta…”. Aí ele não agüentou, soltou uma gargalhada – riso nervoso, eu já disse – que ninguém entendeu. Pararam de conversar os que estavam conversando, de chorar os que estavam chorando, de andar os que estavam andando, todos olharam para ele ao mesmo tempo.

Sentindo-se o alvo das atenções, fingiu um desmaio.

Só assim conseguiu parar de rir. Murmúrios, cochichos, até risinhos ele ouviu, mas ficou ali no chão, estático. Vieram socorrê-lo, deram tapinhas no rosto, trouxeram água. Fingiu acordar: “o quê?… que houve?…”. O colocaram na cadeira. Fingiu melhorar, mas por pelo menos quinze minutos, todos ali se esqueceram do morto. Depois da cena disse estar passando mal e foi embora. Nem viu o enterro.

Estava ficando cada vez mais nervoso com velórios e enterros.

No dia seguinte sua mãe ligou chorando, dizendo: “filho… minha irmã que estava na Europa há três anos…”. Ele teve um ataque cardíaco.

Morreu sem ouvir a mãe terminar a frase: “…vai chegar amanhã para nos visitar!… filho?…FILHO???…”.

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  1. 4 Comentários to “O cara que não gostava de enterros”

  2. Por caputino quaresma em 10/04/2008 | Reply

    cara … curti o texto .. leve e descontraido mas eu senti uma pitada de humor negro nele ae … to enganado ???
    entao to passando pra conferir seu blog… e retribuir a visita que me fez a um tempao atras.. tava meio parado de escrever… brigado a e mano .. e vou continuar a vim sempre aki …
    falow ..

  3. Por Maria João em 15/04/2008 | Reply

    gostei muito do seu conto.

    Por vezes nos sentimos assim, desviados do que esperam de nós, fora do que esperamos de nós mesmos.

    Talvez haja esperança depois… Ou quem sabe, talvez ainda antes.

  4. Por Declev Dib-Ferreira em 16/04/2008 | Reply

    Olá gentes, valeu pelas palavras.

    Apareçam e sintam-se a vontade pra comentar.

    Sim, tem um pouco de humor negro. Mas é como disse a Maria João: tem vezes que não conseguimos fazer o que esperam de nós; essas convenções sociais são por vezes difíceis.

    Abraços.

  5. Por Somel Serip em 12/08/2009 | Reply

    Declev, olá !
    Olha , se o primo não queria “cara de enterro” , até que a gargalhada foi em boa hora , não ?
    Abraços à todos !
    Somel Serip .

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