O palhaço

Por Declev Dib-Ferreira em 24/03/2008

O PALHAÇO

Declev Reynier

Ele só vai trabalhar à noite, mas os dias não estão muito bons para ele…

Aliás, a vida não está sorrindo ultimamente para este pobre sujeito. Tem dívidas, muitas dívidas, faz uma dívida maior para cobrir uma menor. Procura outros empregos, mas a vida não está fácil e todos os empregos – até de porteiro – exigem experiência e referências, mas como um novato pegar experiência se todos os empregos pedem experiência?

Seus amigos o abandonaram, estão bem, empregados, com um dinheirinho para a cerveja, mulher e filhos. Não têm tempo para ficar ouvindo suas lamentações ou praticando filantropia. Sente-se só.

Quando numa fase melhorzinha, ele tinha lá o seu fusquinha, velho, mas que o levava com a esposa e as duas filhas para dar umas voltas no fim de semana pelos parques de seu bairro e à praia (por que é de graça). Só que esse carro é muito visado no Rio de Janeiro. Da última vez que fizeram compras de mês (quando o dinheiro ainda dava) e o dito cujo estava cheio de sacolas de supermercado, ao deixarem por um momento sozinho (voltaram para pegar um saquinho de azeitona que esqueceram), foi roubado. Roubado! Com todas as compras dentro. Imaginem o desespero. Não, não imaginem para não caírem em lágrimas.

Pelo menos ele tinha sua adorável esposa e suas adoráveis filhas.

Tinha, porque o mundo quase caiu em sua cabeça aquele dia em que ia fazer uma viagem para outra cidade tentar um emprego e a esposa mandou as filhas para a casa da avó para poder “arrumar a casa” sossegada. Ele perdeu o ônibus e automaticamente a entrevista e o emprego. Não sabe ainda se foi azar ou sorte. Chegou cedo em casa, abriu a porta e por um momento chegou a pensar que a esposa estava passando mal no quarto, pelos gemidos, urros, gritos e sussurros que dava, mas, qual sua surpresa ao ver a cena chocante: a esposa “cavalgando” o padeiro da esquina a quem ele estava devendo há mais de três meses, vestida só com um chapéu de caubói. Não é preciso dizer que toda a vizinhança ficou sabendo… Vocês conhecem bairro de periferia, todos sabem da vida de todos, principalmente quando saem duas pessoas peladas pelo meio da rua – e não são marido e esposa – com um homem de olhos esbugalhados e vermelhos correndo atrás – o marido – com uma faca de cozinha na mão e a cueca do outro na outra. Depois de tudo calmo ela ainda tentou se explicar, dizendo que assim ele, o padeiro, perdoaria a dívida dele, o corno. Ah…, pensou, por isso que o açougueiro, o dono da barraca da feira aos domingos e o diretor da escola das filhas não estavam mais cobrando aquelas dívidas…

Divórcio. A mulher, com a orientação do advogado, declarou em prantos, na frente de todos que estavam ali para ouvir (e eu estava) que o nosso amigo não estava mais “dando no couro” (expressão da própria), não estando, portanto, cumprindo sua função conjugal, tendo ela que procurar outros homens para se sentir mulher novamente. Bem, tirando aquelas duas vezes mês passado que “ele” não subiu, coisa que me contou chorando como uma criança me pedindo segredo (que eu guardei até aqui, espero que você também o faça), isso é uma mentira. Mas ela conseguiu, ficou com a guarda das crianças.

Há uma semana estava sozinho em casa, havia preparado o almoço (meio saquinho de macarrão instantâneo e duas salsichas fritas) quando chegou aquele senhor de terno e gravata, bem alinhado, com a barba bem feita, cabelos cuidadosamente alinhados, com a ordem de despejo na mão. Claro, não pagava o aluguel, água e luz há muitos meses. Estava na rua agora. Ele tinha um pequeno prazo para se mudar, mas foi naquele dia mesmo para casa dos pais. Como esta já era pequena para os pais e o irmão que lá morava, sobrou para ele o sofá da sala e suas poucas coisas foram guardadas no quartinho de ferramentas e outras bugigangas.

Por sorte, lendo o jornal que seu pai comprara, nas páginas de empregos havia um que não exigia experiência – davam treinamento – e ele foi ver. Estava contratado! Era para trabalhar basicamente as noites, teria uma parte do dia para fazer outras coisas. A vida começava a melhorar. Tinha um uniforme, uma roupa especial. No dia seguinte foi para o seu primeiro dia no emprego. Era numa casa, em uma festinha de criança. O resto do grupo já estava lá. Ele vestiu sua roupa, passou a maquilagem e foi trabalhar. Era o assistente, o que estava lá para levar as tortas na cara, cair nas brincadeiras todas que o “astro” do show fazia.

Depois de tudo o que passou por esses tempos, teria de fazer os outros rirem com as trapalhadas e situações embaraçosas que se metia ali no palquinho da festa.

A arte imita a vida, mas não importa, um palhaço é sempre um palhaço.

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  1. 2 Comentários to “O palhaço”

  2. Por Rosangila Romanin Takemoto em 07/04/2009 | Reply

    Li o texto “O palhaço”, simplesmente demais.
    Se você publicar um livro(se é que já não publicou) e lançá-lo, eu, com certeza, vou adquirir um exemplar.
    Leitora assídua, pode crer.

  3. Por Declev Dib-Ferreira em 11/04/2009 | Reply

    Oi Rosangila,

    Muito obrigado.

    Tenho pretenções de lançar livro só meu, pois até agora só tive publicações de contos e poesias em livros coletivos.

    Com certeza você saberá.

    abraços.

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