O porteiro

Por Declev Dib-Ferreira em 23/03/2008

O PORTEIRO

Declev Reynier

Tenório não suportava ser porteiro. Não havia estudado por pura preguiça e, por fim, foi o que conseguiu. Mas mal começou o trabalho já o estava amaldiçoando. Jurou que não iria ser porteiro por muito tempo. Disse que preferia roubar ou até mesmo matar se preciso, mas não seria porteiro.

Foi o que fez. À noite estava trabalhando – ou dormindo no trabalho – e durante o dia ia roubar. Assaltava velhinhos e crianças, pois eram mais fáceis. Não precisava nem usar a arma. Em poucas semanas não agüentou e largou o emprego, já estava ganhando mais com os roubos. “Trabalhava” agora à noite. Assaltos à mão armada, assaltos a residências, matou pessoas, virou bandido perigoso, procurado pela polícia.

Um dia, num cerco policial, foi surpreendido, trocou tiros com a polícia e acabou baleado. Quase morrendo sentiu uma ponta de arrependimento, mas, como que quisesse justificar-se pensou: “Não! Eu não poderia ser porteiro!”. Morreu.

Do outro lado, foi recebido por espíritos que vieram em seu socorro. O mais iluminado, que chegava a cegar-lhe, disse:

— Tenório, temos um serviço para você cumprir.

— Sim, meu Senhor?!? – Pensava estar falando diretamente com Deus; estava chorando.

— Serás, durante dois séculos, o porteiro da casa de reabilitação das almas desvirtuadas.

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