O cara, a amiga e a esposa

Por Declev Dib-Ferreira em 02/11/2007

O CARA, A AMIGA E A ESPOSA

Declev Reynier

Ele é apaixonado pela esposa. Vivem bem, têm casa, carro, boa comida, frequentam bons restaurantes, cinema, teatro. Nada de muito luxo, mas uma vida estável. Não têm filhos, mas pretendem ter, não um, mas três. É para ter uma família grande, estão acostumados com isso. Muitos irmãos, tios e primos de ambas as partes.

Ele tem também uma grande amiga. É uma amizade meio paixão, sei lá. Se gostam muito. Nunca aconteceu nada, creio que nem desejo por parte dos dois. São como irmãos que se dão muito bem. Ela sabe tudo da vida dele, seus desejos, anseios, dúvidas, seus medos, tudo. E vice-versa. Se conheceram bem pequenos e logo de início surgiu essa grande amizade. Já dormiram até na mesma cama, e podiam dormir mesmo abraçados, pois não acontecia nada.

É lógico que dormir na mesma cama não acontece mais depois que ele casou. Sua esposa, para seu desgosto, odeia esta amiga. E vice-versa. É uma situação complicada. As duas nem se olham. Se uma sabe que a outra estará em tal lugar, não vai. Como explicar para a amiga que, como as duas não se gostam, ele nem sempre estará disponível como antes estava, para aquelas longas conversas, aqueles “porres + choradeiras” que só dois grandes amigos sabem como é? E como convencer a esposa da falta que ele também sente?

Esposa, amiga. Amiga, esposa. Essas duas mulheres o estavam enlouquecendo. E de tanto enlouquecer, fez o que se espera de um louco: uma loucura. Pelo menos foi o que pensaram os conhecidos quando souberam. Convidou a esposa para ir a uma festa na qual a amiga estaria. Cansou de se dividir. Resolveu que teriam que se entender. Teriam que se falar – ou se aturarem em um mesmo ambiente, pelo menos. Quando a convidou, a primeira pergunta da esposa, em tom de ironia,  foi: “sua amiguinha vai?”. “É claro que não!”, respondeu.

Foram. Chegaram antes da “amiguinha”. Estavam bebericando algo quando esta chegou. Ouviu-se um murmurinho, pessoas cochichando, espantadas com o final que poderia ter. Já tinham visto algo semelhante e não gostaram nem um pouco. Alguns ficaram até meio gelados. Ele, o amigo de uma e esposo da outra, foi o que mais gelou. Sua mulher estava conversando distraidamente, de costas para a entrada principal quando virou-se e a viu entrando. O copo caiu de sua mão, chamando a atenção da outra que, quando a viu, quis ir embora, impedida por amigos. A esposa, depois do limpa daqui, enxuga dali, quis dar um escândalo, gritar com o marido, sair correndo, mas se conteve. Tiveram que se encontrar. Antes de se encararem, as duas olharam o responsável pelo encontro como se quisessem fuzilá-lo. Chegou a hora: “oi…”, “oi, tudo bem?”, “tudo”.

E foi só. Todo esse diálogo foi feito de semblantes fechados e singelos balançares de cabeça. A festa transcorreu na maior serenidade, uma aqui, outra lá, na medida do possível. Ele até estranhou não tocarem no assunto… na festa. Em casa levou o maior puxão de orelha desde o casamento. Não deu uma palavra, deixou a esposa desabafar. Naquela noite não teve nada. Como castigo.

No dia seguinte ainda ouviu um pequeno sermão da amiga pelo telefone. Ela jurou que se fizesse isso de novo, cortaria relações. Ele prometeu que não faria. Mas não cumpriu. Promoveu vários outros encontros. Passava noites e noites em greve, mas valia à pena. A amiga sempre jurava não lhe falar mais. Nunca cumpriu.

Foram tantas vezes que as duas começaram a travar conversas amigáveis – que chegaram a até cinco frases cada uma! Num desses encontros, no fundo, já esperados, chegaram a ficar conversando por mais de meia hora. Em casa ela comenta: “Sabe aquela tua amiga?”

– Qual?

– Você sabe…

– Ah…, o que tem?

– Até que tem uma cabeça legal, concordamos em vários pontos. Foi bom ter conversado com ela.

Ele não perguntou nem falou mais nada. Foi dormir com um sorrizinho de vitória no rosto. Ouviu quase que o mesmo comentário da outra. Também não disse uma palavra. Quis dar tempo ao tempo.

No fim de semana será seu aniversário. Pensou se chama ou não a amiga para o almoço. Antes de perguntar se seria conveniente, a esposa fala: “Por quê não convida sua amiga? Afinal, é o seu aniversário.” Chamou. Ela a princípio relutou, mas disse que iria.

No dia, depois que a convidada apareceu, ele que teve que recepcionar as outras pessoas e  servir todo mundo. Sua esposa ficou conversando com ela todo o tempo, a essas alturas, amiga dos dois. Mostrou a casa, todas as fotos que existiam, deram boas risadas. Quem se sentiu meio chateado agora foi ele. Se sentiu meio rejeitado, com ciúmes das duas. Mas fazer o quê, não era isso que queria?

Descobriram coisas maravilhosas uma sobre a outra. Esqueceram os defeitos e tudo mais que as faziam se odiar. Tornaram-se grandes amigas. Ela agora freqüenta a casa  quase todos  os dias. Ele está satisfeito, tem as duas perto de si como queria, sendo que, às vezes, se sente meio jogado. É só reclamar e receber carinho dobrado, mas logo o esquecem e voltam às conversas, algumas confidenciais.

Começaram a sair juntas. Sem ele. Cinema, choppinho, praia. Parecem irmãs gêmeas que se adoram. Ele começou a se sentir sozinho. E com razão. Até sexo diminuíra a freqüência. A esposa começou a ficar mais séria dentro de casa, as visitas da amiga começaram a escassear, embora saíssem muito juntas. Sua antiga confidente não está mais ligando para ele, como fazia antes. Quando ele liga ela é fria, distante.

Ele está preocupado. E curioso. A curiosidade logo se desfez, se transformando  em estupefação. A  esposa  lhe  contou o que estava acontecendo. Ela estava saindo de casa, iria para a casa da amiga, que a essas alturas não era só amiga. Estavam apaixonadas e iriam morar juntas.

A amiga lhe pediu para que continuassem amigos. Ele não quis.

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