Mulher Nua
MULHER NUA
Declev Reynier
- Você viu?!?
- O quê?
- Ali, naquela janela!
- Qual?
- Ali, aquela daquele prédio branco, a terceira da esquerda para a direita do 2º andar…
- O que tem ela?
- Apareceu uma mulher nua nela.
- Não brinca!
- É verdade!
- E como você sabe que ela estava nua?
- Eu vi, ué!
- Poxa…
E ficaram os dois olhando para a janela, na esperança de ver a mulher nua.
Chega um terceiro.
- Ei, o que vocês estão olhando?
- Tem uma mulher nua naquela janela.
- Qual? – olhos arregalados.
- Aquela daquele prédio branco, a terceira da esquerda para a direita do 2º andar.
- É mesmo?
- É!
Ficaram os três olhando para a janela na esperança de ver a mulher nua. Chegam outras pessoas, fazem a mesma pergunta que todas as pessoas normais fariam (ou pelo menos teriam vontade de fazer) e todos respondem a mesma coisa:
- Tem uma mulher nua naquela janela – e antes da segunda pergunta que todas as pessoas normais fariam ou pelo menos teriam vontade de fazer, eles já emendam – ali, naquele prédio branco, a terceira da esquerda para a direita, no 2º andar.
O ajuntamento de gente começou a ficar maior. Foram chegando pessoas de todas as idades, raças, credos e sexos.
Como se ouviam também as mesmas perguntas e respostas em inglês, creio que até de outras nacionalidades.
Todos queriam ver a tal mulher nua.
Já estavam olhando por cerca de trinta minutos quando a rua começou a ficar totalmente entupida. As pessoas já não cabiam na calçada, ficavam no meio da rua; e não adiantavam as buzinas, era por uma “boa†causa. Mas, de qualquer forma, ao avisarem aos motoristas do que se tratava, os próprios saÃam de seus carros e ficavam olhando.
Veio a polÃcia saber o que estava acontecendo. E também ficou ali olhando para a janela daquele prédio branco, a terceira da esquerda para a direita, do 2º andar.
O bairro, ou pelo menos aquela rua e adjacências, já estava totalmente parado, com uma multidão olhando para o alto, quando algo se mexeu na janela.
- Olhem, olhem!
- Silêncio!
- É, silêncio!, senão vai espantar!
- Shsssss! (com o dedo em riste encostado na boca fazendo biquinho)
- Ooooooohhhh! – toda a multidão fez este “ooooooohhhh!†ao mesmo tempo.
Apareceu realmente uma mulher nua na janela. Ela viu aquela multidão olhando para ela e, sem entender nada, ficou ali olhando.
A mulher nua olhando a multidão, a multidão olhando a mulher nua…
- É, uma mulher nua…
- É…
- É mesmo…
Começaram a ir embora, um a um. O grupo foi se dispersando, cada qual para o seu canto, cada um seguindo o seu caminho, continuando a fazer o que estava fazendo há uma hora e meia atrás. A polÃcia se foi, os motoristas entraram em seus carros. A rua já estava vazia. A multidão se dispersou.
A mulher entrou. E se vestiu.