Mulher Nua

Por Declev Dib-Ferreira em 16/10/2007

MULHER NUA

Declev Reynier

- Você viu?!?

- O quê?

- Ali, naquela janela!

- Qual?

- Ali, aquela daquele prédio branco, a terceira da esquerda para a direita do 2º andar…

- O que tem ela?

- Apareceu uma mulher nua nela.

- Não brinca!

- É verdade!

- E como você sabe que ela estava nua?

- Eu vi, ué!

- Poxa…

E ficaram os dois olhando para a janela, na esperança de ver a mulher nua.

Chega um terceiro.

- Ei, o que vocês estão olhando?

- Tem uma mulher nua naquela janela.

- Qual? – olhos arregalados.

- Aquela daquele prédio branco, a terceira da esquerda para a direita do 2º andar.

- É mesmo?

- É!

Ficaram os três olhando para a janela na esperança de ver a mulher nua. Chegam outras pessoas, fazem a mesma pergunta que todas as pessoas normais fariam (ou pelo menos teriam vontade de fazer) e todos respondem a mesma coisa:

- Tem uma mulher nua naquela janela – e antes da segunda pergunta que todas as pessoas normais fariam ou pelo menos teriam vontade de fazer, eles já emendam – ali, naquele prédio branco, a terceira da esquerda para a direita, no 2º andar.

O ajuntamento de gente começou a ficar maior. Foram chegando pessoas de todas as idades, raças, credos e sexos.

Como se ouviam também as mesmas perguntas e respostas em inglês, creio que até de outras nacionalidades.
Todos queriam ver a tal mulher nua.

Já estavam olhando por cerca de trinta minutos quando a rua começou a ficar totalmente entupida. As pessoas já não cabiam na calçada, ficavam no meio da rua; e não adiantavam as buzinas, era por uma “boa†causa. Mas, de qualquer forma, ao avisarem aos motoristas do que se tratava, os próprios saíam de seus carros e ficavam olhando.

Veio a polícia saber o que estava acontecendo. E também ficou ali olhando para a janela daquele prédio branco, a terceira da esquerda para a direita, do 2º andar.

O bairro, ou pelo menos aquela rua e adjacências, já estava totalmente parado, com uma multidão olhando para o alto, quando algo se mexeu na janela.

- Olhem, olhem!

- Silêncio!

- É, silêncio!, senão vai espantar!

- Shsssss! (com o dedo em riste encostado na boca fazendo biquinho)

- Ooooooohhhh! – toda a multidão fez este “ooooooohhhh!†ao mesmo tempo.

Apareceu realmente uma mulher nua na janela. Ela viu aquela multidão olhando para ela e, sem entender nada, ficou ali olhando.

A mulher nua olhando a multidão, a multidão olhando a mulher nua…

- É, uma mulher nua…

- É…

- É mesmo…

Começaram a ir embora, um a um. O grupo foi se dispersando, cada qual para o seu canto, cada um seguindo o seu caminho, continuando a fazer o que estava fazendo há uma hora e meia atrás. A polícia se foi, os motoristas entraram em seus carros. A rua já estava vazia. A multidão se dispersou.

A mulher entrou. E se vestiu.

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