Leila – a história mal contada

Por Declev Dib-Ferreira em 16/10/2007

Ele parecia se divertir com aquilo.

Sempre que tinha uma oportunidade não vacilava: tirava o vestido do armário, punha aquela velha peruca de guerra e lá ia ele.

No princípio precisava beber. Não tinha coragem de sair de cara limpa. Depois, às vezes nem bebia. Se divertia até se acabar. Mexia com todos os homens. Dava beijinhos, pulava em cima dos carros, metia a cabeça nas janelas, desmunhecava a valer.

No final da farra ficava jogado num canto entre farrapos de vestido, a velha peruca e vômito. Era no carnaval, pré-carnaval, pós-carnaval, carnaval fora de época, semana santa, festas juninas, julinas, agostinas, ano novo, até nos aniversários dele e dos amigos.

No início a esposa acompanhava.

Se divertia, ia ao lado, queria ver se ele dava em cima das mulheres, mas os homens vestidos de mulheres é que davam em cima dela. E ela se divertia junto.

Depois começou a ficar cansativo e maçante. Ela já não gostava dessas farras – que ele não abria mão.

Brigavam, e ele ia mesmo só. Ela pensava que ele ficava com outras, sabia como eram essas brincadeiras, os homens se vestem de mulher para dar em cima das de verdade. Ela mesma já sentiu isso na pele. Ele jurou que não fazia isso. Ela não acreditou.

Brigaram feio, separaram, mas ele parece que não ligou muito, se vestia de mulher sempre que havia uma oportunidade.

Seu codinome começou a ficar conhecido: Leila. Gostava da Leila Diniz. Dizia que ficava parecido com ela quando colocava o biquíni. Com a diferença que sua barriga é de chopp.

Os amigos aos pouco se afastaram, não conseguiram seguir seus passos. Viajava quilômetros para participar de alguma festança onde havia um desses “desfiles”.

O cúmulo foi ele começar a freqüentar os barzinhos, aqueles em que a rapaziada fica toda do lado de fora sem gastar nada só se “azarando”, vestido de mulher.

Detalhe: cada noite com um vestido diferente. O pessoal começou a desconfiar, até os mais chegados. De tanto fazerem brincadeiras e piadinhas de mau gosto, ele se afastou dessas pessoas.

Não freqüenta mais estes lugares nem vai mais às festas onde todos brincam vestidos de mulher. Sumiu.

Alguns dizem que ele se magoou com a desconfiança dos amigos, outros juram que viram um travesti muito parecido com ele fazendo ponto perto da Praça Mauá…

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