Complexo
Ela vivia triste. Aquele complexo a deixava extremamente infeliz. Vivia pelos cantos, sem dar um sorriso, de cabeça baixa, olhando para o chão, um olhar quase sempre de tristeza.
Era uma menina bonita, com seus catorze anos, esbelta, cabelos compridos e cacheados, olhos vivos e brilhantes. Mas os amiguinhos da escola não a deixavam em paz um minuto, por causa do seu pequeno defeito e, como nós sabemos, criança neste ponto é cruel. No recreio não brincava com ninguém, todo mundo tinha vergonha de andar com ela; não queriam dizer que eram amiguinhas de uma pessoa tão diferente. As professoras tentavam ajudar, conversando com os coleguinhas, mas não tinha jeito. Em casa também não tinha sossego. Os irmãos não perdoavam – irmãos também sabem ser cruéis. Os pais a consolavam, mas lá ia ela chorando para o quarto, desabafar agarrada aos seus bichinhos de pelúcia. Ela já estava cansada de sofrer por causa desses preconceitos. Não queria ser diferente, não pediu para ser assim. Certo dia, chorando, foi pedir à mãe que pelamordedeus a levasse ao dentista. Tinha que dar um jeito naquilo. A mãe tentou tirar de sua cabecinha: “Filhinha, Deus quis assim, você é linda assim e nós te amamos do jeito que você é…â€. Mas não teve jeito, ela estava decidida; não queria mais ser tão diferente de todo mundo. Não aquentava mais passar vergonha e ser humilhada pelo seu defeito.
Foram ao dentista. O doutor fez – e com prazer, por saber como a menina devia sofrer sendo daquele jeito -, tudo o que ela lhe pediu. Arrancou uns cinco dentes da sua dentição perfeita – de dentes brancos como lençóis brancos lavados pelo sabão em pó que lava mais branco, sem nenhuma cárie, nem tártaro, manchas ou coisas assim. Arrancou um da frente e os outros dos lados. Fez alguns buracos nos que restaram – de leve, só para não ficarem tão perfeitos. Passou uma substância para escurecê-los e pronto! Agora sim! Em uma terra onde todos têm dentições podres, não seria ela a única com uma dentição perfeita.
Não iria mais passar vergonha. No dia seguinte entrou na escola rindo de orelha a orelha.